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Textos

Do Minotauro até a Lei 9605

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O que chamamos de mitos, os antigos contavam nas noites de lua cheia, são histórias exemplares das manobras dos heróis e dos deuses para o modo de vida em sociedade. O mito é arte, uma obra aberta, um sistema vivo porque é atualizado cada vez que é contado é o sonho das sociedades, um instrumento sofisticado de ajuste psíquico. Os arquétipos que formam os mitos representam, em geral, a dinâmica da psique, ajustam o individuo consigo, com a sociedade e com o seu meio. O Minotauro é uma dessas histórias dos antigos, contadas infinitamente sem perder o valor. Vamos rever as imagens poéticas deste mito baseado no relato de Joseph Campbell e, depois, a nossa leitura.

Campbell nos conta que o rei Minos governava na prosperidade a Ilha de Creta, luxuoso centro comercial e artístico do mundo antigo, porém, por dedicar-se demasiado às guerras em defesa do território comercial, ficava muito afastado da rainha Pasífae, que veio a apaixonar-se ardentemente pelo touro mais belo da manada do palácio, -justamente o touro branco que Zeus enviou do mar atendendo às orações de Minos e que este deveria sacrificar como oferenda e prova de devoção a Ele; no entanto, o touro era tão magnífico que o rei decidiu ficar com ele e ofereceu outro animal em seu lugar-. E Pasífae teve um filho, nasceu uma criança com cabeça, chifres e cauda de touro, o Minotauro; logo o monstro torna-se perigoso. O rei ordena que Dédalo, o artista/artesão, construa um labirinto para encerrar a fera, que ali, será alimentada com jovens: tributos ofertados pelas nações conquistadas. Um dos jovens destinados a alimentar o monstro era o destemido Teseu que acaba matando o Minotauro, desfazendo assim, o ciclo de dor. A descendência de Minos já estava ligada a um touro; Sua mãe, Europa, foi seduzida e levada por um touro à Creta, esse touro era uma das manifestações de Zeus e dessa relação nasceu Minos que foi recebido com muita alegria por todos.

Na nossa leitura o monstro é eliminado por Teseu porque colocou o reino em perigo, era uma fera de instintos incontroláveis, o reino o temia e envergonhava-se dele - pois o mesmo era prova da desobediência e ganância de Minos, assim como, da infidelidade da rainha e porque consumia o vigor e a esperança representados pelos jovens, foi sacrificado para expurgar as falhas do governo. O Reino pode ser visto como a sociedade, ou uma instituição, um sistema, ou como o indivíduo na sua totalidade; a monstruosidade é o resultado do egoísmo exacerbado, dos baixos instintos.

Vemos as aparições do touro como uma espiral descendente sinalizando a degradação social e espiritual ao longo da História. A primeira vez surge como uma epifania de Zeus, desce à Terra com aparência de touro, seduz Europa e concebe a Minos, a presença divina na Terra. A segunda vez, surge como aliança entre deus e os homens, sinal de obediência do rei a deus, entretanto, foi degradado a objeto de posse do rei e de luxúria da rainha. A terceira aparição foi como Minotauro: a materialização da ganância, da devassidão, da vergonha, do medo, dos baixos instintos que, através do ego escravizam as sociedades, sacrificando a juventude e a beleza do espírito humano. O labirinto é um espaço de iniciação.

Em outra ilha distante no espaço, no tempo e na prosperidade nas artes o touro reaparece e é torturado até a morte para expurgar as condições de culpa, vergonha, baixos instintos as quais, os participantes do ritual de escárnio a que chamam farra, sentem-se incapazes de transcendê-las; Mas, esse ritual que impõe sofrimento ao touro, provavelmente leve apenas à fomentar ainda mais essas condições miseráveis.

Mesmo que aparentemente bem sucedido o reino estava condenado pelo monstro do ego, Minos deixou de ser e de fazer parte do todo, voltado apenas para o sucesso material, descuidou do âmbito interno- sua constante ausência do palácio teve conseqüências. O touro é uma encantadora e cobiçada manifestação de potência e beleza telúrica, uma figura majestosa que foi usada para expiar as culpas humanas. O monstro a ser sacrificado é o ego que está, sempre, em algum canto do labirinto da mente a espreitar.

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Florianópolis Ilha de SC



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